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quinta-feira, 8 de março de 2012

ESTAÇÃO ANTÁRTICA COMANDANTE FERRAZ II

Jornal Folha de São Paulo, de hoje, dia 8 de março de 2012, noticiou o seguinte texto:
 
A presidente Dilma Rousseff autorizou nesta quinta-feira a abertura de créditos extraordinários no valor de R$ 40 milhões para a reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz, destruída por um incêndio no último dia 25. 

O montante liberado deve ser utilizado na primeira fase de reconstrução do lugar - o que inclui, por exemplo, despesas de limpeza do sítio da estação destruída e o uso do navio polar Almirante Maximiano como estação de pesquisas. 

Em audiência nesta semana no Senado Federal, o ministro Celso Amorim (Defesa) estimou que a reconstrução terá um custo total de R$ 100 milhões e deverá começar apenas em 2014. 

De antemão, já sei que vou receber críticas da comunidade científica brasileira.  Por outro lado é meu dever, como engenheiro civil e ex-professor da Universidade Federal do Paraná, tecer alguns comentários, que creio pertinente ao momento. E faço com algum conhecimento de causa.  Assisti numa audiência pública no Senado a fala do comandante da Base Marítima, denominado Estação Antártica Comandante Ferraz. Este bloguista, na condição de engenheiro civil, assistiu também vídeo sobre construção de uma das bases de pesquisa na Antártica dos EEUU.

Na matéria anterior sob mesmo título, comentei que a nossa base era feito de lata. Seria como um pleonasmo, porque literalmente correspondia com a construção ali existente. Numa região em que 8 meses do ano, corresponde ao inverno, teria de supor que as construções deveriam ser feito com o máximo de rigor e técnica que exige as condições climáticas adversas.  Se comparada com as modernas técnicas de construção, seria como se estivesse improvisando acampamento de containers.  Há necessidade de rever o projeto e não simplesmente construir outra igual.

No caso do último acidente, o que seria dos nossos pesquisadores e pessoal de apoio, se não tivessem o socorro das armadas chilenas no resgate de nossos bravos homens e mulheres?  Onde estava o nosso navio polar Almirante Maximiano? O navio polar, nosso, não tem estrutura de resgate? Não tínhamos ali, na ocasião, helicópteros de apoio? Tudo isto, tem um nome, mazelas.  Amadorismo puro, numa situações e condições que não permitem erros.  Vamos repensar na logística, antes de mandar gente para a região, vamos? 

O que me causou espanto ainda, foi o depoimento do comandante no Senado. Ele disse na sua fala que a pesquisa científica feita na Estação, são de ciência básica, mas que tem pouca utilidade prática.  Gasta-se muito para formar alguns poucos pesquisadores da ciência pura, que perfeitamente poderia se fazer à distância, coletando apenas materiais para pesquisa, "in loco". Calcule o custo "per capita" para formação destes pesquisadores, nas condições atuais. Já pensaram, nisso?  O próprio comandante chamou atenção para o fato.  

Antes de gastar dinheiro à toa, será que não deveríamos repensar no assunto?  Como o próprio comandante sugeriu, por que não fazer pesquisa que tem impacto direto nas costas brasileiras.  E tem muita coisa que poderia ser feito.  Estudar sobre correntes marítimas do Atlântico Sul, sobre a diversidade biológica com impacto comercial para a pesca brasileira, por exemplo. O Brasil está na Antártica já há cerca de 30 anos! O mundo de hoje mudou.  Com modernos meios de comunicação, os bancos de dados, não necessariamente deveriam ser armazenados em containers de lata. 

Há que levar a sério todo projeto que envolve o dinheiro público.  O dinheiro público, não dá na árvore.  Devemos equalizar bem o custo benefício, dentro do que é possível, uma vez que a permanência do Brasil na Antártica é questão estratégica. Nem por isso, devemos jogar dinheiro pela janela e o pior ainda, dar suporte inadequado para os que mantém fincada a nossa bandeira na Antártica. 

Ossami Sakamori, 67, engenheiro civil, foi professor da UFPR.  Atende pela rede Twitter: @Sakamori10

Um comentário:

  1. Oiiii, antes de tudo bem??

    li seu texto, muito bem feito. Mas como posso concordar ou discordar, vou ser sincera que discordo em alguns pontos. Quem já foi para o continente gelado sabe como as coisas são muito mais complicadas do que parecem!
    Acredito que o Brasil tem muitos pontos para melhorar, mas aquela estação era muito organizada, acredito que o que houve foi nada mais do que um acidente, sem culpa de ninguém.
    Pode ser que esteja errada, mas acredito nisso. Digo pois vivi lá por um mês, tempo no qual deu para conhecer a rotina das pessoas que estão envolvidas nos projetos e que ajudavam a manter a estação.
    Tomara que a estação II seja tão boa ou melhor que a antiga! Assim posso continuar meus projetos, no qual acredito ser muito importante, e com muita utilidade prática.

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